Saúde mental, ansiedade digital e culto à imagem

Se alguém quisesse inventar uma máquina para produzir ansiedade em escala industrial, dificilmente faria algo mais eficiente do que a mistura de feed infinito, notificações e comparação permanente com a vida alheia. A boa notícia é que não precisou inventar: já existe e está no seu bolso. Pesquisas recentes mostram que reduzir ou pausar o uso de redes diminui sintomas de depressão e ansiedade entre jovens, o que é quase engraçado de tão óbvio: quando você para de olhar o palco iluminado da vida de todo mundo, fica um pouco mais fácil lidar com os bastidores da sua. Mas o curioso é ver como muitos cristãos encaram isso com um misto de negação e piedade mal aplicada: “Não é o celular, é falta de oração”. Aí a pessoa tenta orar com o celular na mão, notificação ligando o tempo todo, e depois se culpa porque “não consegue se concentrar nas coisas de Deus”. 

Seria cômico se não fosse trágico: reclamamos da dificuldade de meditar na Palavra enquanto fazemos de tudo para treinar o cérebro a não ficar mais de 15 segundos na mesma coisa. A liturgia diária é clara: acordar, desbloquear a tela, conferir mensagens, dar aquela conferida rápida nas tragédias do mundo e nas vitórias alheias, sentir uma leve angústia, chamar isso de “ficar informado” e seguir o dia. Depois estranhamos que o coração está inquieto, que a mente está cansada, que a fé parece rasa. A vida devocional vira um aplicativo entre muitos, competindo com notificações que, sejamos honestos, raramente tratam de algo realmente urgente. Estudos falam em dopamina, ciclo de recompensa, vício comportamental; a Bíblia chama isso de coração dividido, escravidão a ídolos discretos. 

E, claro, há a cereja do bolo: o culto à imagem. Não basta consumir; é preciso produzir. Cada um se torna gestor da própria marca. Escolhe ângulo, legenda, trilha sonora; posta a parte mais apresentável da vida e espera, com uma mistura de ansiedade e esperança, o veredito: curtidas, comentários, compartilhamentos. Quando vai bem, respira aliviado: “sou relevante, sou visto”. Quando vai mal, surgem aquelas perguntas silenciosas que ninguém admite em público: “será que ninguém se importa?”, “será que estou ficando para trás?”. Isso atinge de adolescentes a pastores. E aí, sem perceber, a espiritualidade começa a se adaptar ao formato. Mensagens são moldadas pelo que gera mais reação, não pelo que o povo precisa ouvir. A verdade dura vira “conteúdo difícil de engajar”; o Evangelho é fatiado em frases curtas, de preferência com fundo de pôr do sol e café.

Do ponto de vista reformado, isso é uma contradição monumental. Confessamos que somos justificados pela fé, aceitos em Cristo, amados por Deus independentemente de nossa performance. Na prática, porém, buscamos uma segunda justificação diária: a justificação pelo engajamento. É como se disséssemos “Cristo me salvou, mas quem me valida mesmo é o meu público”. E antes que alguém pense “isso não é comigo”, vale um teste simples: quanto tempo você aguenta ficar sem checar o celular depois de postar algo importante para você? Quanto peso emocional tem, no seu dia, uma mensagem não respondida, uma visualização sem resposta, um story visto pela pessoa certa ou ignorado por ela? A linguagem pode ser contemporânea, mas o problema é antigo: buscamos em criaturas o que só o Criador pode dar.

Curiosamente, a ciência está gritando algo que a sabedoria bíblica sempre afirmou: menos tela, menos comparação, mais silêncio, mais relações reais, fazem bem à alma. Quando um estudo mostra que uma semana sem redes reduz índices de depressão e ansiedade em jovens, não estamos diante de um novo sacramento tecnológico, mas de uma confirmação empírica de algo muito simples: não fomos feitos para viver diante de um espelho global 24 horas por dia. Somos limitados, finitos, precisamos de descanso, de tédio, de tempos em que nada “acontece”, de conversas sem notificação. A proposta cristã não é voltar à Idade Média, mas recuperar a ideia de que o coração precisa ser pastoreado com a mesma seriedade com que administramos agenda e trabalho. 

Talvez um dos atos mais contraculturais hoje seja algo tão pouco glamouroso quanto deixar o celular em outra sala na hora da oração, ou desligar as notificações de tudo que não seja estritamente necessário, ou fazer um pequeno jejum digital regular sem postar que está fazendo jejum digital. Não para conquistar pontos com Deus, mas para lembrar à própria alma quem manda em quem. A pergunta não é “posso usar redes sociais?”, mas “quem está usando quem?”. Uma fé reformada coerente vai responder que todas as coisas – inclusive a tecnologia – existem para servir à glória de Deus. Se, na prática, o uso das redes está servindo mais à nossa vaidade e ansiedade do que ao nosso crescimento em Cristo, talvez esteja na hora de uma reforma, não do algoritmo, mas do coração. 

Rev. Augustus Nicodemus Lopes
Pastor Presbiteriano

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