O SILÊNCIO DO VELHO PARA SE FAZER O NOVO

A providência divina por trás do silêncio
Publicado em 30/10/2026

​“[...] porque nunca jamais qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens santos falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo.” (2 Pe 1.21)

Introdução

O livro de Ester, na versão original hebraica, tal como temos em nossas Bíblias, possui uma distinção singular e, para muitos, até surpreendente: o nome de Deus (Yahweh ou Elohim) não é mencionado sequer uma única vez em toda a narrativa. Essa ausência estilística não é um mero acaso ou um erro dos textos sagrados. Na verdade, trata-se de um recurso literário de profunda beleza espiritual, feito sob medida para ressaltar a providência oculta de Deus atuando nas sombras da corte persa.

 Todavia, no período intertestamentário, leitores judeus helenistas em Alexandria sentiram certo desconforto com a aparente “secularidade” do texto original. Por volta do século II a.C., surgiram seis seções inseridas no texto traduzido na Septuaginta, conhecidas como Adições a Ester. Esses acréscimos gregos incluíam orações fervorosas e menções específicas a Deus, com o objetivo de deixar a história mais religiosa.

Ao traduzir a Bíblia para o latim, idioma oficial do Império Romano, dando origem à Vulgata, o erudito Jerônimo esclareceu os critérios de sua tradução. Em suas notas introdutórias, ele inseriu advertências específicas para indicar que as seções fragmentárias de Ester —  os capítulos que foram acrescentados — não constavam no cânon hebraico, mas apenas na Septuaginta, que é o texto grego.

Síntese

Enquanto o cânon hebraico segue o texto original, a Septuaginta traz as chamadas “adições gregas de Ester”, que formam um conjunto de 107 versículos inseridos historicamente na versão grega do livro. Esses textos extras foram acrescidos para enriquecer a narrativa original e aparecem dispostos ao longo do livro sob as designações litúrgicas de capítulos A a F (ou capítulos 11 a 16):

  • O sonho profético de Mardoqueu (capítulo A / 11): a narrativa expõe uma visão apocalíptica marcada por dragões rugindo, rios transbordantes e trevas cósmicas, que anunciava uma crise iminente: o plano de extermínio do povo judeu e a ameaça de silenciar para sempre o louvor ao Deus verdadeiro.
  • O édito real contra os judeus (capítulo B / 13.1-7): essa passagem apresenta a transcrição detalhada do decreto de genocídio, promulgado pelo rei Artaxerxes, redigido a mando de Hamã, para ordenar a eliminação completa dos judeus de todas as províncias do império.
  • A oração de Mardoqueu (capítulo C / 13.8-18): o texto destaca uma comovente prece em que Mardoqueu declara sua recusa em prostrar-se diante de Hamã, enfatizando que sua atitude nasceu exclusivamente de seu zelo pelo Senhor, e não de soberba ou orgulho pessoal.
  • A oração e agonia de Ester (capítulo C / 14): essa passagem descreve a súplica fervorosa da rainha Ester enquanto jejuava em cinzas. Ela confessa seu temor ante o risco de se prostrar na presença do rei e expressa sua profunda repulsa pelas honrarias e luxos da corte pagã.
  • A audiência real expandida (capítulo D / 15): a cena retrata, de forma dramática, a entrada de Ester na presença do rei Artaxerxes. Ela desmaia por duas vezes diante do olhar faiscante do monarca até que Deus abranda o coração do rei.
  • O novo decreto e a interpretação do sonho (capítulos E e F / 16 e 10.4-13): o relato apresenta a restauração dos judeus pelo império e a revelação de que a pequena fonte do sonho inicial era a própria rainha Ester.

 

Por que é um livro apócrifo?

As seções adicionais inexistiam no manuscrito original em hebraico preservado pelas autoridades judaicas e atestado pelos testemunhos de Josefo e Jerônimo. Este último, ao compor a Vulgata Latina, deslocou essas passagens para o final da obra por reconhecer que destoavam do conteúdo original, mostrando claramente que eram um acréscimo   posterior. Do ponto de vista teológico e estilístico, as Adições tentam modificar a narrativa inspirada pelo Espírito Santo no texto hebraico. Elas preenchem com orações litúrgicas explícitas aquilo que a obra original ensina majestosamente por meio da ação invisível de Deus.

Vale destacar que as partes adicionadas trazem erros de época e diferenças históricas claras, como chamar Hamã de “macedônio” e afirmar que ele conspirava para transferir a soberania da Pérsia para os gregos (Ad Est 16.10). A tradição reformada preserva a integridade do cânon hebraico, acolhendo o Livro de Ester em sua pureza original e sem acréscimos indevidos.

Conclusão

Ao tentarem preencher o “silêncio” de Deus inserindo Seu nome nas páginas do Livro de Ester, os tradutores helenistas expuseram uma fragilidade humana universal: a nossa dificuldade em discernir o agir do Senhor quando Ele opta pelo silêncio em vez de prodígios visíveis. Não necessitamos de acréscimos humanos para enxergar Deus no controle da história. O livramento de Ester, a insônia providencial do rei persa Assuero e a ruína repentina de Hamã proclamam a glória divina com muito mais força do que qualquer discurso humano, por mais perfeito que seja.

O Senhor dos eleitos opera incessantemente, tecendo os fios invisíveis da Sua providência tanto no silêncio da noite como na luz do dia. Mesmo quando o nome d’Ele parece silenciado pelos poderes deste século, Ele continua no trono, sustentando Suas promessas irrevogáveis em Cristo Jesus.

 

Eis que o Velho silenciou para que o Novo se fizesse em Cristo Jesus,

Pr. Paulo Cesar da Silva

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