“Pois tu és grande e operas maravilhas; só tu és Deus!”. (Salmo 86.10)
Irmãos, em nossa primeira pastoral, escrita em 4 de janeiro, mencionei brevemente o processo de adoecimento que me afastou das atividades ministeriais por um ano. Prometi, então, abrir meu coração em um testemunho sobre tudo o que vivi e aprendi nesse período, compartilhando as lições que ele me proporcionou. Dessa forma, apresento agora alguns relatos e reflexões, na esperança de que sejam proveitosos para a edificação da igreja.
Embora eu já tivesse vivenciado diversas experiências de fracasso ao longo da minha trajetória, nenhuma se comparou a essa. Foi, sem dúvida, a mais dolorosa de todas, um verdadeiro esgotamento emocional. Tornou-se ainda mais difícil por vários motivos: a idade, a experiência acumulada e os tantos anos de aconselhamento pastoral. Naquele momento, vi-me diante de um duro diagnóstico: eu não havia sido capaz de gerenciar minhas próprias emoções!
Sempre cultivei a habilidade de isolar emoções e conflitos entre diferentes esferas da minha vida. Conseguia evitar, por exemplo, que as vivências do ambiente doméstico — fossem elas positivas ou desafiadoras — interferissem na minha atuação no gabinete pastoral, mantendo a mesma preservação no sentido inverso. Contudo, a análise daqueles dias iniciais revelou uma realidade distinta: eu não externalizava o que sentia. Internamente, as emoções permaneciam em uma ebulição latente e contínua, acumulando-se silenciosamente antes de emergir como um fogo brando, mas persistente — uma ebulição lenta, semelhante ao calor resiliente das brasas, que consome sem alardear (Sl 42.5, 11; 43.5).
Eu me lembro bem de algumas conversas que tive com minha esposa e com alguns colegas pastores que vieram me visitar, sobre minha indecisão em pedir ou não licença ao Presbitério. Meu temor não era o risco de perder o pastorado da IPC, pois o Conselho, por unanimidade, me amparou com todos os recursos e sempre deixou claro que eu deveria fazer o que fosse necessário para restaurar minha saúde, além do apoio emocional que também recebi dos pastores do próprio Presbitério.
Desde os meus dez anos de idade, nunca fiquei sem trabalhar mais que um mês, seja por transição de empresa ou por desemprego decorrente de crises econômicas. Em todas essas fases, vivi sob pressão de chefes e proprietários. No pastorado, também enfrentei muitas crises e pressões emocionais, porém em aspectos bem diferentes.
A primeira pressão emocional veio do próprio chamado, pois quem me chamou foi Deus, e, sendo Ele misericordioso, também exige zelo e compromisso daqueles que vocaciona (Jr 23.1; Ez 34.2). Em seguida, vieram as exigências da agenda, com inúmeras responsabilidades: aconselhar, visitar, pregar, participar de reuniões por vezes estressantes, críticas, e, em alguns momentos, conviver com a frustração por resultados espirituais não alcançados. Enfim, como em toda atividade profissional, há demandas e tensões a serem vivenciadas.
Nesse contexto, o meu medo estava, na verdade, no fato de vir a gostar da liberdade que teria durante um ano, o que poderia me levar a antecipar minha jubilação e a não retornar ao pastoreio de uma igreja local (Lc 9.62).
Minha preocupação não estava relacionada ao aspecto financeiro — mais adiante, você entenderá por que não tive essa angústia nessa área específica. Quando o Júnior, meu filho, tomou conhecimento e me ligou preocupado, ele não se conteve e chorou muito comigo ao telefone. Sandra, Moabe e Séphorah já haviam chorado, e eu percebia que elas se seguravam para não me causar ainda mais inquietação.
Senti uma profunda tristeza por estar provocando preocupação à minha família, e um temor me acometeu a alma: minha esposa, que vinha se recuperando de um estado de desânimo prolongado, poderia ter seu quadro agravado. Eu, que em certos aspectos sempre fui uma espécie de arrimo para a minha família parental, agora estava sendo motivo de dor e choro para a minha família nuclear (Ef 5.25-28).
Tive uma luta interior que em nada me ajudava a melhorar minha saúde emocional e cardíaca, afetada por vários dias, senão meses. Não tendo outra fonte de renda, além das côngruas pastorais, o fato de o Conselho me remunerar integralmente durante todo o período de licença — como se trabalhando eu estivesse -- me causou um abalo que já imaginava, posto que nunca recebi nada de graça: jamais herança ou doação expressiva; o pouco que tenho e consegui é fruto do meu trabalho.
Em uma teleconsulta com o Dr. Roberto Aylmer, psiquiatra da cidade do Rio de Janeiro, meu constrangimento aumentou e muito, pois, quando lhe contei tal fato, ele me aconselhou a agradecer ao Conselho. Em mais de 30 anos cuidando de pastores, desconhecia semelhante generosidade (Cl 3.15; I Ts 5.18). Nesse dia, a dor foi tão intensa que achei que meu coração fosse explodir (Tg 4.10; I Pe 5.6).
Na próxima pastoral, espero encerrar este testemunho, compartilhando as lições que Deus me ensinou com toda essa situação. Contudo, agora, quero deixar para você uma única palavra de encerramento:
“Foi-me bom ter eu passado pela aflição, para que aprendesse os teus decretos.” (Salmo 119.71)
Não há abismo emocional ou espiritual tão profundo que o braço de Deus não possa nos resgatar,
Pr. Paulo Cesar da Silva
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