O SILÊNCIO DO VELHO PARA SE FAZER O NOVO

A sabedoria que vem do alto
Publicado em 06/11/2026

“[...] mas para os que foram chamados, tanto judeus como gregos, pregamos a Cristo, poder de Deus e sabedoria de Deus.” (1 Co 1.24)

Introdução

Estudiosos afirmam que o Livro da Sabedoria de Salomão, atribuído de forma literária ao grande rei de Israel, foi redigido originalmente em um refinado grego alexandrino, em meados do século I a.C., por um sábio judeu da diáspora egípcia. Trata-se de uma primorosa obra de apologia judaica, formulada em diálogo aberto com os conceitos da filosofia grega helenística, que visa preservar a fé da juventude israelita diante dos atrativos da cultura pagã e confronta a idolatria vigente no Mediterrâneo.

 

Síntese

O Livro da Sabedoria articula-se em três partes temáticas perfeitamente coordenadas. Na primeira (Sb 1–5), o autor contrasta o destino dos ímpios com a bendita recompensa dos justos, afirmando que “as almas dos justos estão nas mãos de Deus, e nenhum tormento as tocará” (Sb 3.1). Destaca-se também a passagem do capítulo 2, na qual os ímpios tramam contra o justo que os repreende: “Armemos ciladas ao justo, porque nos é incômodo e se opõe às nossas obras [...] Se o justo é filho de Deus, Deus o defenderá e o livrará das mãos de seus adversários. Condenemo-lo a uma morte infame, pois, segundo diz, Deus cuidará dele” (Sb 2.12, 18, 20).

Ao delimitar a segunda grande seção do Livro da Sabedoria (Sb 6–9), o autor, tradicionalmente chamado de pseudo-Salomão, entoa um magnífico hino de louvor à Sabedoria personificada. Ele a descreve poeticamente como uma “emanação pura da glória do Todo-Poderoso, reflexo da luz eterna, espelho sem mancha da atividade de Deus” (Sb 7.25-26).

 Na terceira e última parte da obra (Sb 10–19), o texto empreende uma releitura alegórica da história do Êxodo e tece uma crítica devastadora contra as origens e a loucura da idolatria gentílica. O autor aponta, de forma contundente, que o culto às imagens é a verdadeira fonte de toda a podridão moral da humanidade.

 

Por que é um livro apócrifo?

O Livro da Sabedoria de Salomão jamais figurou na Bíblia hebraica. De berço helenístico, sua composição ocorreu no Egito, provavelmente em Alexandria, quase 900 anos após a morte do rei Salomão. Sob o aspecto doutrinário, a obra incorpora pressupostos estranhos à revelação bíblica tradicional. Um exemplo é a influência da filosofia platônica, visível na ideia de uma alma pré-existente unida de forma acidental a um corpo corruptível (Sb 8.19-20). Além disso, o livro sugere que o mundo foi criado a partir de uma “matéria informe” já existente (Sb 11.17). Essa abordagem enfraquece diretamente a doutrina teológica da criação ex nihilo (do nada).

Embora a Igreja Primitiva tenha citado frequentemente o Livro da Sabedoria de Salomão e dele extraído belíssimas analogias conceituais, como fez o apóstolo Paulo no primeiro capítulo de Romanos e o autor da Epístola aos Hebreus (Hb 1.3),  a teologia reformada o reconhece como excelente exercício literário e teológico de sua época, mas desprovido de inspiração divina canônica.

 

Conclusão

A cena pungente do capítulo 2 salta aos olhos de todo leitor cristão como um prenúncio dos escárnios proferidos pelos sacerdotes ao pé da cruz do Calvário: “Confiou em Deus; livre-o agora, se o ama!” (Mt 27.43). A angústia do justo perseguido encontra seu cumprimento supremo na Paixão de Jesus Cristo.

Todavia, a verdadeira Sabedoria que desceu do céu não repousa em tratados filosóficos nem em personificações poéticas: ela se fez carne e habitou entre nós. Cristo é o “poder de Deus e sabedoria de Deus” (1Co 1.24). É n’Ele, e somente n’Ele, que “estão ocultos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2.3).

Que a nossa mente não se curve diante dos padrões do pensamento secular, mas adore a Cristo, a Sabedoria encarnada que nos resgatou da morte para a vida eterna!

Eis que o Velho silenciou para que o Novo se fizesse em Cristo Jesus,

Pr. Paulo Cesar da Silva

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